quarta-feira, 25 de agosto de 2010

33a Desventura

Carpe Omnium
A amizade dos renais é mais sincera
A euforia dos diabéticos mais intensa
As primaveras dos aidéticos são mais belas
e os leucêmicos tem manhãs mais tenras

É mal do século, é mal de parkinson
degeneração é pular de um prédio
pra que lutar contra o que já é fato?
melhor morrer de dor do que morrer de tédio

Quem morre de câncer já morreu de amor
pela fragilidade que a vida tem
e tudo que viveu ele aproveitou
porque quem vive mal é que vive bem

Ele já não liga pro engarrafamento
tanto faz pra ela se acabou o cigarro
e é muito melhor que esteja chovendo
parece que a vida quer tirar um sarro

A vida tem valor quando termina cedo
e depois que morre todo mundo é santo
quando se perde tudo já não se tem medo
e cada momento ganha seu encanto

Quem morre de câncer já morreu de amor
pela fragilidade que a vida tem
e tudo que viveu ele aproveitou
porque quem vive mal é que vive bem

-Saah Tavares

Ps: observação no dia-a-dia do hospital...isso me trouxe uma tsunami de pensamentos e sensações...nós perdemos tanto tempo no nosso mundinho besta(a namorada da fulana traiu ela com a cicrana...eu morro de ciúmes da ex do meu namorado...fulano de tal saiu hoje e nem me ligou...cicrano ta me devendo cem reais)e nos perdemos de nossos valores, nos esquecemos o quanto isso tudo aqui dura pouco, o quanto "todo tempo do mundo" pode durar menos de um ano, menos de um mês...pode te limitar a uma cadeira de rodas, a depender dos outros, a mal conseguir comer sozinho...e mesmo assim, essas pessoas vivem todos os dias, acordam todos os dias, vão pra Quimio, vão pra Hemodiálise, tomam o coquetel que os devora por dentro...e elas vivem. Vivem muitas vezes melhor do que vivemos, e reclamam infinitamente menos do que reclamamos. Eles passam todos os dias pela minha mesa com o mesmo sorriso, me dão o mesmo "bom dia" alegre, educado, cordial...e eu os invejo! Não invejo suas enfermidades, mas invejo o que eles aprenderam...o que eles sabem e eu não sei, o que eles sentem e eu não sinto. Eles sabem valorizar cada minuto, cada manhã, cada pôr do sol...porque embora pra todos nós um dia venha a ser o último, pra eles pode ser qualquer um...pode ser a qualquer momento. Eles não sabem quando vão ver a esposa, os filhos, os amigos, os pais pela última vez...eles não sabem se amanhã vão poder comer seu doce favorito...enquanto nós, em nosso mundinho fútil, estamos nos preocupando com a roupa do final de semana...com a briga com a namorada, com o tédio do sábado a noite. Eu vejo essas pessoas diariamente, e elas me fazem ver o quanto nossas vidas são vazias. Como eu queria, só um pouquinho, só por um dia, aprender mais com elas!

32a Desventura

Bom...era uma vez um monte de textos que eu nunca postei, e eles estavam todos em meu caderninho, esquecidos. Aí veio a pasta sanfona que tudo organiza, e eu precisei colocar meus papeis em ordem...como percebi que havia muito mais coisa do que eu teria capacidade de carregar em minha mochila, resolvi digitalizar uma parte dos textos, e posta-los no blog para que eles conheçam um mundo novo além-caderno e para que o mundo além-caderno os conheça. Eles serão postados todos juntos e viverão felizes para sempre:

Perco
Tem sons que só se escuta quando fica silêncio...
Gestos vão perdendo o sentido enquanto tento, inutilmente, chamar tua atenção.
O teu caso pelo novo, teu descaso pelo tudo, o teu caso com o mundo, torna qualquer inverno mais triste...torna qualquer tentativa mais estafante
e é como um monólogo autista: pergunto, me respondo, eu jogo, tu jogas, eu perco.
E tu dizes pra não me aborrecer por pouca coisa...como se pouca coisa não fosse tão pouco, comparado ao que realmente é.
Tem coisas que quando prosseguem acabam passando do ponto final
e tem coisas que chegam ao fim antes que se descobrisse qual era na verdade, o ponto final delas.


Soprando
Acabo de matá-la mais uma vez em mim
O quarto não parece vazio
não queria mais viver dias assim
O silêncio, o ócio, a conversa hostil
Começar tudo de novo é o oposto de desistir
e me lembro de fantoches n'um cenário de brinquedo
pensamentos fúteis de um passado obsoleto
vão sumindo, um a um, em um ciclo imperfeito
e as vozes, sentimentos, cada dia mais ardentes
vão virando uma rotina, sem motivo, contundente
o que outrora fôra ansia misturada com saudade
hoje é só motivo de alimentar sua vaidade
são palavras apenas, da boca pra fora
coisas que se pode deixar pra outra hora
e fico soprando brasas pra chama não apagar
mas são nas últimas faíscas que fazes questão de pisar.



Sem título
Poderia não reconhecer mais aqueles caminhos pelos quais costumávamos ir,
e poderia não escutar mais as músicas que me lembram de ti,
e tudo vai dando errado ao redor de mim,
sinto não conhecer mais a essência do que me trouxe até aqui.
Mas restam algumas certezas inexplicáveis,
sentimentos intermináveis...
e o que era pra ser eterno, torna-se passageiro
como dias que se tornam meses, em um ciclo, pra mim, imperfeito.
Os dias passaram logo, fazendo pouco do que acreditei
mundando o meu conceito
me apresentando um mundo perfeito
e do jeito que veio, se foi
deixando apenas esse vazio
deixando a sensação incômoda
de que não precisava acabar assim
e me pergunto se escolhi errado
me odeio por ter gostado
seguro nas mãos do passado
sem vontade de deixá-lo ir.


Descasos
Como provocação do acaso, nossos caminhos se descruzaram.
Não estamos mais aqui.
Estamos presentes em corpo, mas nossos espíritos voam longe
talvez explorem terras desconhecidas
outros sabores e cheiros que ainda não experimentamos
ou estão vivendo aventuras no passado
de cabelos longos e perfumes doces
como se tudo que existiu em nós não passasse de desencanto.
O que hoje leva as cinzas, do que um dia foi um incêndio
e talvez, antes do incêndio, uma fortaleza
confortável, aconchegante e segura. Feita de risos de sonhos.
E como móbiles que pendem do teto, balançando a favor do vento
nossos corações vagam agora em direções opostas
nos fazendo crer que algumas coisas, embora ainda tentemos
nunca voltam para o seu lugar.


Sem título
Tua ausência, constante, no meio da noite
mil amores quebram, mil dias passam
Tua pressa, inexplicável, de ir embora
mil tendões fendem, mil fendas abrem
E olhei o paraíso árido
brisa doce da manhã esquecida
e tua roupa, sobre a cama, sobreposta
trás a volta de minhas noites entorpecidas
O teu cheiro, tão frequente, penetrante
ilustrando a fantasia mais vibrante
de pousar sobre o teu peito amante
esse mundo, sobre tudo, sobre nós
e só o medo de ouvir a tua voz
n'aquele tom que eu conheço muito bem
me dizendo que me entende bem além
de outros corpos que outrora conheci.