segunda-feira, 31 de maio de 2010

24ª Desventura

Todo Mundo Conta

Dia desses me flagrei por mais uma vez narrando à minha melhor amiga(com detalhes sórdidos) uma experiência sexual que vivi na noite anterior a de nossa conversa. O problema é que comentei acidentalmente com a pessoa com quem estive na ocasião, que vez ou outra eu conto aos meus amigos sobre minhas aventuras, e percebi certo constrangimento da parte dela, mesmo que pra mim, aquilo fosse perfeitamente natural. Logo em seguida me peguei pensando em como em nossa geração, satirizamos e banalizamos assuntos que nos deveriam ser particulares e íntimos.

Lembro-me das reuniões de família da minha infância, a cada data comemorativa, onde sempre as mesmas cenas se repetiam. As mulheres falavam sobre novela, fofocas e seus filhos na sala, os homens se reuniam na varanda pra tomar cerveja, falar sobre futebol, mulheres e obviamente: sexo. Era aceitável e comum que eles contassem piadas sujas entre si, e comentassem, mesmo que bem mais contidos do que os homens de hoje em dia, sobre suas vidas sexuais, mas quando alguma mulher ou criança se aproximava, obviamente, o assunto mudava, e eles fingiam que nada acontecia. Por muitas vezes, em meu mundo infantil, fiquei remoendo o que poderiam significar certas expressões que eu ouvia sem querer, ao passar ao lado da mesa masculina pra roubar algum salgadinho do tira-gosto. Acredito que havia a conciência de não permitir que o assunto se tornasse desrespeitoso para com as esposas e filhos, e por isso, eles o mantinham entre si. Uma atitude louvável, se compararmos com algumas maneiras de tocar no assunto mais recentes. havia também o pudor das gerações passadas, que faziam tudo "por trás dos panos". Fingiam só iniciar a vida sexual após o casamento, e casavam se a moça acabava engravidando. Certos valores que a sociedade atual perdeu.

Cresci acreditanto que a família era santa, já que o assunto "sexo" sempre foi tabu dentro de casa, mas hoje em dia, os tempos são outros.

É considerado na maioria das vezes vulgar e machista o comportamento taxado como masculino, de contar aos colegas de faculdade e trabalho, tim-tim por tim-tim das transas que eles tem com suas namoradas, "ficantes" e garotas que levaram consigo depois da "balada". As mulheres, por sua vez, ficam aborrecidas e injuriadas quando isso acontece, mas logo depois acabam repetindo a mesma ação, falando sobre o tamanho dos pênis de seus parceiros, do quanto eles "terminam" mais rápido do que elas, se eles demoram demais pra "levantar", e outras peculiaridades com suas amigas. Os homens contam pra se vangloriar sobre os outros, já que em sua natureza há a necessidade patológica de competir. Eles vêem sexo em tudo que os rodeia, e é obviamente um de seus assuntos favoritos. Eles dependem biológicamente disso, e os que não tem tanta sorte nesta área, quase sempre não são os mais populares da turma, e geralmente se tornam a piada. O homem vê o sexo como troféu, como forma de provar sua capacidade. Algumas mulheres pensam assim também, e se comportam como homens, o que fatalmente resulta em discórdia entre os sexos, neste caso.

As mulheres contam pra comparar suas experiências, e saber se foi só com elas que seja lá o que for aconteceu. Uma mulher é incapaz de aceitar que se aconteceu daquela maneira com ela, ninguém mais em seu meio social viveu a mesma situação, então pra isso, precisam comentar entre si, criar uma longa teoria sem fundamento sobre aquilo, e rir juntas no final. Mulher fofoca, homem fofoca, cada um de sua maneira, e por motivos distintos, mas no final, até em um assunto que deveria ser pessoal, há necessidade de expor as vergonhas, suas e alheias.

Os gays, mesmo tendo relações diferentes, não deixam de ser homens, e em sua maioria, contam vantagens como eles,e competem da mesma maneira, porém, com objetivos também diferentes. É interessante pra eles provar quem consegue mais, quem seduz mais, quem é mais interessante, e as conversas geralmente são tão pesadas quanto as de "caras" héteros na mesa do bar, ao final do expediente.

As lésbicas tendem a se dividir entre o clássico "vamos comentar, e fica só entre nós" e o "vamos contar e rir juntas desse absurdo que uma de nós viveu". As mais reservadas, ficam só no "aconteceu comigo, amiga, e foi muito bom..." mas no final, acaba tudo na mesma.

É claro que eu generalizei geral aqui, e que muitas vezes não é exatamente desta maneira que acontece. Existem homens que respeitam suas companheiras, e comentam sobre suas experiências apenas com os amigos mais próximos e de confiança, assim como tem mulheres que falam deliberadamente sobre o que fazem com seus "objetos de trabalho" pra quem quiser ouvir. Tem gays que cuidam da própria reputação, e lésbicas que agem como os "caras" da mesa do bar. É fato que existem aquelas pessoas que tem realmente bloqueio pra falar do assunto, e se sentem incomodadas em expor suas vidas pessoais, acabando por não comentar nada com amigos e amigas, e que até se aborrecem quando alguém pergunta algo do tipo, mas no final, elas sempre acabam insinuando uma coisa ou outra, e isso por si só, já é uma maneira de contar.

Generalizando ou não, o fato é que, seja pra fofocar, comentar, discutir, se vangloriar, comparar, mesmo sem intenção, mesmo que seja apenas pra desabafar, se o assunto é sexo, todo mundo, em algum momento, conta. Não adianta ser hipócrita, e dizer que nunca tocou neste assunto com ninguém. Até quem é virgem, comenta sobre como espera que seja, com quem já transou tenta lhe dar uma prévia de como vai ser.

Sexo é bom, falar de sexo é normal. Não importa se você é moderno ou "quadrado", se é reservado ou exposto, se é hétero ou homo. Só não podemos deixar de lado aqueles velhos valores dos homens de minha infância, que são, mesmo que de forma amena, manter o respeito para com as pessoas com quem nos relacionamos, e antes de sair por aí falando o que bem entender, se colocar pelo menos uma vez no lugar do parceiro ou parceira, seja ele ou ela fixos ou de uma noite apenas, e pensar sinceramente até onde gostaríamos de ter nossa intimidade exposta por aí.


-Saah Tavares



"O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável quanto a poesia."


segunda-feira, 17 de maio de 2010

23ª Desventura

Hoje é terça feira. Ontem foi meu aniversário.
Depois de amanhã, vamos fazer o show do Veneza. Não estou nervosa, eu posso fazer isso com a voz ruim. Já fiz tantas coisas com a voz ruim...e é engraçado que minha voz sempre se vai de mim em vésperas de apresentações. Monólogos, musicais, shows...
Escrevi muitas coisas recentemente, mas ando sem disposição de digita-las. Ando fugindo de algumas moças, e correndo atrás de outras. Porque nada me satisfaz?
Deu preguiça de continuar escrevendo, mas tenho muita coisa aqui dentro. Tenho muita coisa pra falar...
Só por hoje, vou guardar pra mim.