terça-feira, 26 de outubro de 2010

34a Desventura

Segundo Andar(Eu sou covarde)

É preciso ter coragem pra escrever um livro
É preciso ter coragem para dizer não
É preciso ter coragem pra correr o risco
É preciso ter coragem pra pedir perdão
É preciso ter coragem pra seguir viagem
É preciso ter coragem pra se apaixonar
É preciso ter coragem pra tirar vantagem
É preciso ter coragem para se matar

Mas se for pra te tirar de rota
Te bater à porta e te dizer “não dá”
Eu sou covarde, por inteiro
Meu amor é o primeiro
Do segundo andar

É preciso ter coragem pra deixar um amigo
É preciso ter coragem para se alistar
É preciso ter coragem pra pedir abrigo
É preciso ter coragem para levantar
É preciso ter coragem para decidir
É preciso ter coragem pro vestibular
É preciso ter coragem para não fugir
É preciso ter coragem para apanhar
É preciso ter coragem para dar um soco
É preciso ter coragem para revidar
É preciso ter coragem pra tentar de novo
É preciso ter coragem pra aprender a amar

Mas se for pra te tirar de rota
Te bater à porta e te dizer “não dá”
Eu sou covarde, por inteiro
Meu amor é o primeiro
Do segundo andar
-Saah Tavares

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

33a Desventura

Carpe Omnium
A amizade dos renais é mais sincera
A euforia dos diabéticos mais intensa
As primaveras dos aidéticos são mais belas
e os leucêmicos tem manhãs mais tenras

É mal do século, é mal de parkinson
degeneração é pular de um prédio
pra que lutar contra o que já é fato?
melhor morrer de dor do que morrer de tédio

Quem morre de câncer já morreu de amor
pela fragilidade que a vida tem
e tudo que viveu ele aproveitou
porque quem vive mal é que vive bem

Ele já não liga pro engarrafamento
tanto faz pra ela se acabou o cigarro
e é muito melhor que esteja chovendo
parece que a vida quer tirar um sarro

A vida tem valor quando termina cedo
e depois que morre todo mundo é santo
quando se perde tudo já não se tem medo
e cada momento ganha seu encanto

Quem morre de câncer já morreu de amor
pela fragilidade que a vida tem
e tudo que viveu ele aproveitou
porque quem vive mal é que vive bem

-Saah Tavares

Ps: observação no dia-a-dia do hospital...isso me trouxe uma tsunami de pensamentos e sensações...nós perdemos tanto tempo no nosso mundinho besta(a namorada da fulana traiu ela com a cicrana...eu morro de ciúmes da ex do meu namorado...fulano de tal saiu hoje e nem me ligou...cicrano ta me devendo cem reais)e nos perdemos de nossos valores, nos esquecemos o quanto isso tudo aqui dura pouco, o quanto "todo tempo do mundo" pode durar menos de um ano, menos de um mês...pode te limitar a uma cadeira de rodas, a depender dos outros, a mal conseguir comer sozinho...e mesmo assim, essas pessoas vivem todos os dias, acordam todos os dias, vão pra Quimio, vão pra Hemodiálise, tomam o coquetel que os devora por dentro...e elas vivem. Vivem muitas vezes melhor do que vivemos, e reclamam infinitamente menos do que reclamamos. Eles passam todos os dias pela minha mesa com o mesmo sorriso, me dão o mesmo "bom dia" alegre, educado, cordial...e eu os invejo! Não invejo suas enfermidades, mas invejo o que eles aprenderam...o que eles sabem e eu não sei, o que eles sentem e eu não sinto. Eles sabem valorizar cada minuto, cada manhã, cada pôr do sol...porque embora pra todos nós um dia venha a ser o último, pra eles pode ser qualquer um...pode ser a qualquer momento. Eles não sabem quando vão ver a esposa, os filhos, os amigos, os pais pela última vez...eles não sabem se amanhã vão poder comer seu doce favorito...enquanto nós, em nosso mundinho fútil, estamos nos preocupando com a roupa do final de semana...com a briga com a namorada, com o tédio do sábado a noite. Eu vejo essas pessoas diariamente, e elas me fazem ver o quanto nossas vidas são vazias. Como eu queria, só um pouquinho, só por um dia, aprender mais com elas!

32a Desventura

Bom...era uma vez um monte de textos que eu nunca postei, e eles estavam todos em meu caderninho, esquecidos. Aí veio a pasta sanfona que tudo organiza, e eu precisei colocar meus papeis em ordem...como percebi que havia muito mais coisa do que eu teria capacidade de carregar em minha mochila, resolvi digitalizar uma parte dos textos, e posta-los no blog para que eles conheçam um mundo novo além-caderno e para que o mundo além-caderno os conheça. Eles serão postados todos juntos e viverão felizes para sempre:

Perco
Tem sons que só se escuta quando fica silêncio...
Gestos vão perdendo o sentido enquanto tento, inutilmente, chamar tua atenção.
O teu caso pelo novo, teu descaso pelo tudo, o teu caso com o mundo, torna qualquer inverno mais triste...torna qualquer tentativa mais estafante
e é como um monólogo autista: pergunto, me respondo, eu jogo, tu jogas, eu perco.
E tu dizes pra não me aborrecer por pouca coisa...como se pouca coisa não fosse tão pouco, comparado ao que realmente é.
Tem coisas que quando prosseguem acabam passando do ponto final
e tem coisas que chegam ao fim antes que se descobrisse qual era na verdade, o ponto final delas.


Soprando
Acabo de matá-la mais uma vez em mim
O quarto não parece vazio
não queria mais viver dias assim
O silêncio, o ócio, a conversa hostil
Começar tudo de novo é o oposto de desistir
e me lembro de fantoches n'um cenário de brinquedo
pensamentos fúteis de um passado obsoleto
vão sumindo, um a um, em um ciclo imperfeito
e as vozes, sentimentos, cada dia mais ardentes
vão virando uma rotina, sem motivo, contundente
o que outrora fôra ansia misturada com saudade
hoje é só motivo de alimentar sua vaidade
são palavras apenas, da boca pra fora
coisas que se pode deixar pra outra hora
e fico soprando brasas pra chama não apagar
mas são nas últimas faíscas que fazes questão de pisar.



Sem título
Poderia não reconhecer mais aqueles caminhos pelos quais costumávamos ir,
e poderia não escutar mais as músicas que me lembram de ti,
e tudo vai dando errado ao redor de mim,
sinto não conhecer mais a essência do que me trouxe até aqui.
Mas restam algumas certezas inexplicáveis,
sentimentos intermináveis...
e o que era pra ser eterno, torna-se passageiro
como dias que se tornam meses, em um ciclo, pra mim, imperfeito.
Os dias passaram logo, fazendo pouco do que acreditei
mundando o meu conceito
me apresentando um mundo perfeito
e do jeito que veio, se foi
deixando apenas esse vazio
deixando a sensação incômoda
de que não precisava acabar assim
e me pergunto se escolhi errado
me odeio por ter gostado
seguro nas mãos do passado
sem vontade de deixá-lo ir.


Descasos
Como provocação do acaso, nossos caminhos se descruzaram.
Não estamos mais aqui.
Estamos presentes em corpo, mas nossos espíritos voam longe
talvez explorem terras desconhecidas
outros sabores e cheiros que ainda não experimentamos
ou estão vivendo aventuras no passado
de cabelos longos e perfumes doces
como se tudo que existiu em nós não passasse de desencanto.
O que hoje leva as cinzas, do que um dia foi um incêndio
e talvez, antes do incêndio, uma fortaleza
confortável, aconchegante e segura. Feita de risos de sonhos.
E como móbiles que pendem do teto, balançando a favor do vento
nossos corações vagam agora em direções opostas
nos fazendo crer que algumas coisas, embora ainda tentemos
nunca voltam para o seu lugar.


Sem título
Tua ausência, constante, no meio da noite
mil amores quebram, mil dias passam
Tua pressa, inexplicável, de ir embora
mil tendões fendem, mil fendas abrem
E olhei o paraíso árido
brisa doce da manhã esquecida
e tua roupa, sobre a cama, sobreposta
trás a volta de minhas noites entorpecidas
O teu cheiro, tão frequente, penetrante
ilustrando a fantasia mais vibrante
de pousar sobre o teu peito amante
esse mundo, sobre tudo, sobre nós
e só o medo de ouvir a tua voz
n'aquele tom que eu conheço muito bem
me dizendo que me entende bem além
de outros corpos que outrora conheci.

domingo, 25 de julho de 2010

31a Desventura

-Sabe...as vezes eu fico pensando em nós, e sinto tanto medo...
-Medo? Mas medo de que?
-Medo de te perder, medo de que alguém te tire de mim, medo que um dia tu me troques por alguém melhor do que eu...
-Impossível
-O que é impossível?
-Haver alguém melhor.







Obrigada por fazer do meu mundo um lugar mais feliz.

terça-feira, 29 de junho de 2010

30a Desventura

-Andei pensando nos planos sobre os quais te falei no outro dia...
-Quais deles? Tu vive de fazer planos...
-Mas dessa vez eu falava dos teus.
-...os meus? Que planos?
-Os que eu te disse que não pões em prática.
-Ah. Estamos falando disso novamente.(suspiro)
-Estamos. Acho que ao menos precisamos falar, já que são apenas planos...e que nunca deixam de ser...
-Tu me cansa com essa conversa. Sempre a mesma coisa, a mesma pressão...
-Não te pressiono. Quero te ver bem.
-Se realmente o quisesse, não me colocaria essas coisas o tempo todo nas faces.
-Ah...(decepção) desculpe, não sabia que isso te cansava...
-Pois cansa. Tu bem sabes o quanto te respeito, mas é apenas isto. Não peça mais do que posso lhe dar.
(Porta batendo, silêncio)
-...meu plano era você.
Mas não havia ninguém pra responder

domingo, 20 de junho de 2010

29a Desventura

O que te faz feliz?
O que te satisfaz?
O que te entorpece?
O que te enlouquece?
O que te amanhece quando anoitece?

Eu quero um cigarro e um café quente
Você quer nem pensar na gente
Eu quero acreditar quando você mente
Você quer meu beijo mais indecente

Eu quero esse teu amor egoísta
Você quer amanhecer na pista
Quero entender o seu ponto de vista
Você prefere me riscar da lista

O que me faz querer?
O que me faz correr?
O que me faz viver?
O que me dá prazer?
O que me faz crer no que não se vê?

Eu quero te encontrar onde te procuro
Você prefere me deixar no escuro
Eu quero pensar mais no futuro
Você só dá de cara no muro

Eu quero me livrar desse calor
Você só vive procurando amor
Eu quero achar que não acabou
E você não quer me fazer esse favor
-Saah Tavares

sábado, 19 de junho de 2010

28ª Desventura

Alfa de Juno

O mundo é insípido. Incolor, inodor, inóculo, não indolor.
Caminhei com rumo certo, porém, não sabia onde ir. Conhecia bem meu destino, mas não encontrei objetivo nele.
Pessoas assassinam diariamente a gramática e a moda que elas mesmas regem. As regras mudam, e gostando ou não, mudamos com elas, como camaleões habilidosos, diante da eterna expectativa predatória. Já estivemos, outrora, no topo da cadeia alimentar, mas em novos panoramas, constituímos apenas a parte mais esperta desse ecossistema decadente, canibal e vicioso.
As massas parecem cupins frenéticos, em um dia comemorativo qualquer, em que os amantes se presenteiam.
Observei-as apenas com a intenção de não esbarrar nelas, em pleno centro comercial. Os cupins não merecem tal comparação por serem organizados, mas merecem, sim, por sua capacidade destrutiva para com a madeira. E a madeira, são as virtudes.
Nadei neste lago raso, e ele me afogou. O lago tem braços invisíveis, pois fazem parte do mundo, e ele me afoga por precisar fazer parte dele. O que é profundo não deve vir à tona, pois se é profundo, deve permanecer nas profundezas. O raso sufoca mais do que o profundo, e o que vem de lá não sobrevive na superfície, como criaturas marinhas dos sub-oceanos que os tsunamis arrastam, e algumas senhoras assistindo o jornal da noite, acreditam tratarem-se de extraterrestres com guelras. Por isso me calo, diante de tudo. Por isso me adéquo à modernidade eminente. O que eu penso, o que eu faço, nada mais é do que um simples peixe, que jamais foi visto antes de um desastre natural. A Terra luta contra seus parasitas, e eu, contra meus demônios...todos temos nossos santos interiores, nossas devoções, e nosso caos paralelo. A cidade está cheia de flores, mas elas não perfumam mais meus peixes, não enfurecem mais meus demônios, não amaciam mais os meus santos.
-Saah Tavares

quinta-feira, 17 de junho de 2010

27a Desventura

De tanto me perder, de andar sem sono
Por essa noite sem nenhum destino
Por essa noite escura em que abandono
Os sonhos do meu tempo de menino

De tanto não poder mais ter saudade
De tudo que já tive e já perdi
Dona menina
Eu me resolvo agora ir me embora
Pra bem longe e daqui

Um dia desses eu me caso com você
você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre e pompa
Você vai ver como eu me caso com você

Meu pobre coração não vale nada
Anda perdido, não tem solução
Mas se você quiser ser minha namorada
Vamos tentar, não custa nada

Até pode dar certo..ai ai
E se não der eu pego um avião
Vou pra Shangai e nunca mais eu volto pra te ver..

Um dia desses eu me caso com você
Você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre e pompa
Você vai ver como eu me caso com você

Um dia desses eu me caso com você
Você vai ver... você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre e pompa
Você vai ver como eu me caso com você

Adriana Calcanhoto - Um dia desses

segunda-feira, 14 de junho de 2010

26ª Desventura

Ode de Zenana

Quero que Estela me troque as meias
E que Marília me afague a nuca
Manuela, a quero por inteira
E Maria que me una à boca

De Lia quero bons poemas
Que Daniela me pague as contas
Bianca, que resolva meus problemas
Ana diga dia e noite que me ama

Quero que Fernanda me comande
E que Camila me elogie o dia inteiro
De Raquel quero o sorriso mais vibrante
E que Roberta me coloque um freio

De Jade quero conhecer o cume
Que Isadora me propague qualidades
Quero Luísa morta de ciúmes
E nenhum amor pra sustentar tanta vaidade
-Saah Tavares

quinta-feira, 3 de junho de 2010

25ª Desventura

Ode ao Espelho

Oh espelho, o que queres, me encarando desse jeito?
Se te limpo, se embaças, não me mostras a verdade
o que mostra me incomoda, não entendo esse teu meio
de frustrar os meus desejos, ou louvar minha vaidade

Oh espelho que não sabe o que se passa aqui por dentro
que evito quando acordo, que procuro quando amo
espelho que esqueço quando me canso e me deito
e que odeio quando vejo que escapa do meu plano

Se não és como me enxergam, porque me enganas?
se não mais em ti confio, porque ainda me mentes?
por acaso és tu quem levarei pra minha cama?
se não és, então me mostra o que tens de diferente

Espelho, se te exalto, é porque já o fizeram
sem tua ajuda, sem motivo, apenas pra me bajular
o que difere de como te vejo, varia por critério
são olhos, espelhos externos, que me fazem confiar.


-Saah Tavares

segunda-feira, 31 de maio de 2010

24ª Desventura

Todo Mundo Conta

Dia desses me flagrei por mais uma vez narrando à minha melhor amiga(com detalhes sórdidos) uma experiência sexual que vivi na noite anterior a de nossa conversa. O problema é que comentei acidentalmente com a pessoa com quem estive na ocasião, que vez ou outra eu conto aos meus amigos sobre minhas aventuras, e percebi certo constrangimento da parte dela, mesmo que pra mim, aquilo fosse perfeitamente natural. Logo em seguida me peguei pensando em como em nossa geração, satirizamos e banalizamos assuntos que nos deveriam ser particulares e íntimos.

Lembro-me das reuniões de família da minha infância, a cada data comemorativa, onde sempre as mesmas cenas se repetiam. As mulheres falavam sobre novela, fofocas e seus filhos na sala, os homens se reuniam na varanda pra tomar cerveja, falar sobre futebol, mulheres e obviamente: sexo. Era aceitável e comum que eles contassem piadas sujas entre si, e comentassem, mesmo que bem mais contidos do que os homens de hoje em dia, sobre suas vidas sexuais, mas quando alguma mulher ou criança se aproximava, obviamente, o assunto mudava, e eles fingiam que nada acontecia. Por muitas vezes, em meu mundo infantil, fiquei remoendo o que poderiam significar certas expressões que eu ouvia sem querer, ao passar ao lado da mesa masculina pra roubar algum salgadinho do tira-gosto. Acredito que havia a conciência de não permitir que o assunto se tornasse desrespeitoso para com as esposas e filhos, e por isso, eles o mantinham entre si. Uma atitude louvável, se compararmos com algumas maneiras de tocar no assunto mais recentes. havia também o pudor das gerações passadas, que faziam tudo "por trás dos panos". Fingiam só iniciar a vida sexual após o casamento, e casavam se a moça acabava engravidando. Certos valores que a sociedade atual perdeu.

Cresci acreditanto que a família era santa, já que o assunto "sexo" sempre foi tabu dentro de casa, mas hoje em dia, os tempos são outros.

É considerado na maioria das vezes vulgar e machista o comportamento taxado como masculino, de contar aos colegas de faculdade e trabalho, tim-tim por tim-tim das transas que eles tem com suas namoradas, "ficantes" e garotas que levaram consigo depois da "balada". As mulheres, por sua vez, ficam aborrecidas e injuriadas quando isso acontece, mas logo depois acabam repetindo a mesma ação, falando sobre o tamanho dos pênis de seus parceiros, do quanto eles "terminam" mais rápido do que elas, se eles demoram demais pra "levantar", e outras peculiaridades com suas amigas. Os homens contam pra se vangloriar sobre os outros, já que em sua natureza há a necessidade patológica de competir. Eles vêem sexo em tudo que os rodeia, e é obviamente um de seus assuntos favoritos. Eles dependem biológicamente disso, e os que não tem tanta sorte nesta área, quase sempre não são os mais populares da turma, e geralmente se tornam a piada. O homem vê o sexo como troféu, como forma de provar sua capacidade. Algumas mulheres pensam assim também, e se comportam como homens, o que fatalmente resulta em discórdia entre os sexos, neste caso.

As mulheres contam pra comparar suas experiências, e saber se foi só com elas que seja lá o que for aconteceu. Uma mulher é incapaz de aceitar que se aconteceu daquela maneira com ela, ninguém mais em seu meio social viveu a mesma situação, então pra isso, precisam comentar entre si, criar uma longa teoria sem fundamento sobre aquilo, e rir juntas no final. Mulher fofoca, homem fofoca, cada um de sua maneira, e por motivos distintos, mas no final, até em um assunto que deveria ser pessoal, há necessidade de expor as vergonhas, suas e alheias.

Os gays, mesmo tendo relações diferentes, não deixam de ser homens, e em sua maioria, contam vantagens como eles,e competem da mesma maneira, porém, com objetivos também diferentes. É interessante pra eles provar quem consegue mais, quem seduz mais, quem é mais interessante, e as conversas geralmente são tão pesadas quanto as de "caras" héteros na mesa do bar, ao final do expediente.

As lésbicas tendem a se dividir entre o clássico "vamos comentar, e fica só entre nós" e o "vamos contar e rir juntas desse absurdo que uma de nós viveu". As mais reservadas, ficam só no "aconteceu comigo, amiga, e foi muito bom..." mas no final, acaba tudo na mesma.

É claro que eu generalizei geral aqui, e que muitas vezes não é exatamente desta maneira que acontece. Existem homens que respeitam suas companheiras, e comentam sobre suas experiências apenas com os amigos mais próximos e de confiança, assim como tem mulheres que falam deliberadamente sobre o que fazem com seus "objetos de trabalho" pra quem quiser ouvir. Tem gays que cuidam da própria reputação, e lésbicas que agem como os "caras" da mesa do bar. É fato que existem aquelas pessoas que tem realmente bloqueio pra falar do assunto, e se sentem incomodadas em expor suas vidas pessoais, acabando por não comentar nada com amigos e amigas, e que até se aborrecem quando alguém pergunta algo do tipo, mas no final, elas sempre acabam insinuando uma coisa ou outra, e isso por si só, já é uma maneira de contar.

Generalizando ou não, o fato é que, seja pra fofocar, comentar, discutir, se vangloriar, comparar, mesmo sem intenção, mesmo que seja apenas pra desabafar, se o assunto é sexo, todo mundo, em algum momento, conta. Não adianta ser hipócrita, e dizer que nunca tocou neste assunto com ninguém. Até quem é virgem, comenta sobre como espera que seja, com quem já transou tenta lhe dar uma prévia de como vai ser.

Sexo é bom, falar de sexo é normal. Não importa se você é moderno ou "quadrado", se é reservado ou exposto, se é hétero ou homo. Só não podemos deixar de lado aqueles velhos valores dos homens de minha infância, que são, mesmo que de forma amena, manter o respeito para com as pessoas com quem nos relacionamos, e antes de sair por aí falando o que bem entender, se colocar pelo menos uma vez no lugar do parceiro ou parceira, seja ele ou ela fixos ou de uma noite apenas, e pensar sinceramente até onde gostaríamos de ter nossa intimidade exposta por aí.


-Saah Tavares



"O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável quanto a poesia."


segunda-feira, 17 de maio de 2010

23ª Desventura

Hoje é terça feira. Ontem foi meu aniversário.
Depois de amanhã, vamos fazer o show do Veneza. Não estou nervosa, eu posso fazer isso com a voz ruim. Já fiz tantas coisas com a voz ruim...e é engraçado que minha voz sempre se vai de mim em vésperas de apresentações. Monólogos, musicais, shows...
Escrevi muitas coisas recentemente, mas ando sem disposição de digita-las. Ando fugindo de algumas moças, e correndo atrás de outras. Porque nada me satisfaz?
Deu preguiça de continuar escrevendo, mas tenho muita coisa aqui dentro. Tenho muita coisa pra falar...
Só por hoje, vou guardar pra mim.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

22ª Desventura

Voyer
25-04-2010
23:32
Já é tarde e as luzes continuam acesas
as pessoas circulando e a vejo tão só
me trancando num universo de incertezas
acompanho a vida alheia em ré menor.
Tudo é muito claro ali do outro lado
e me escondo no escuro pra ouvir seus sons
tentando entender o que houve de fato
pra tentar dar pra essa crise os melhores tons

Quis fazer uma canção pra moça da janela
que só veste branco quando vai dormir
fico imaginando qual é o nome dela
e que milagre ocorre pra ela sorrir

Hoje alguma coisa saiu da rotina
e a vejo andar inquieta pela casa
já era hora de a ver fechar a cortina
e me jogar na cama com o peito em brasa
mas hoje aconteceu algo de diferente
talvez eu pudesse tentar ajudar
não vejo o ar perdido e quase inocente
e enquanto não dormir, não posso me deitar

Quis fazer uma canção pra moça da janela
que se deita tarde e não vejo acordar
fico imaginando como é a voz dela
e se um dia ela vai olhar pra cá.


(já perdi as contas de a ver deitar
talvez se sentir mal e tornar a levantar
hoje alguma coisa lhe tirou o sono
e eu queria um peito pra lhe consolar)

-Saah Tavares

segunda-feira, 19 de abril de 2010

21ª Desventura

Tava mexendo nos meus documentos e encontrei esse texto antigo...fiquei um tempão me perguntando de onde eu teria tirado isso. Talvez eu me encaixe em alguma das vidas nele descritas, ou nas duas, ou deseje ser uma das duas, ou apenas tenha sentido vontade de escrevê-lo. Resolvi coloca-lo aqui, já que nem lembro se já o coloquei em algum lugar antes. Eis:

Ela pediu mais uma dose. Era a décima da noite, mas sua vista ainda não estava tão turva quanto ela gostaria, nem sua cabeça girando tanto quanto deveria.
Ela estava dançando com as outras quatro belas moças que a acompanhavam naquela noite. O alto astral emanava do movimento de seu corpo atlético, de seus belos cabelos ondulados, do balanço de seus quadris totalmente proporcionais a todo o resto, igualmente perfeito
Ela virou a dose de uma só vez garganta abaixo. Nem sentia mais o calor da tequila descendo, nem do alcool subindo. Encaixou os dedos entre os cabelos curtos, lisos, em desordem. Tudo começou a rodar, finalmente.
As amigas riam entre segredinhos, comentando sobre o "fulano" que estava ficando com a "Sicrana" ali em um canto qualquer, ela continuava dançando, sem se importar com nada, deixando apenas as luzes e sons embalarem seu ritmo.
O caminho ao banheiro parecia tão longo de repente, e tudo ia voltando muito rápido, a traição, o carro batido no poste, a "deprê", o trabalho por fazer, a falta, a solidão, o bar, a boate, aquela noite, as dez doses.
A cerveja começou a fazer efeito, ela virou-se apenas para as amigas, que estavam azarando os "gatinhos", e falou meio que gritando, devido ao som muito alto "banheiro!" e como em todo grupo feminino, todas a seguiram.
E por uma incrível coincidencia do destino, a tristeza e a alegria ali se encontraram, na porta do banheiro de uma boate qualquer, e sem precisar de palavras, seus olhos se compreenderam, pediram um reencontro, viram um no outro a necessidade de um momento a sós.
No final da noite, as amigas comentavam, no quarto de uma delas, quem seria aquela "fulana" com quem a "Sicrana" entrou no carro, no final da balada, abandonando-as, enquanto em algum outro ponto da cidade, muito mais aconchegante e tranquilo, uma mágoa começava a cicatrizar, e a tristeza e a alegria, juntas, começavam a construir o amor.

-Saah Tavares

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Vigésima Desventura

Querer

Vem agora me pedir pra desenhar seu mundo
e me faz pensar por eras, onde me encontro
se o encontro não é mais de se encontrar
em algum canto, desencanto, distante de nós.
Vem tentar me definir, tal fosse pronome
e me deixa bem pra lá de suas frases feitas
mas o bela dela tem um jeito de me levar
tão longe quanto o perto que ela deixa estar
e o pronome vira verbo quando me sorri
verbo que só se pronuncia uma vez
palavra que a destaca em milhartes
que trás a ressaca que não é dos mares
que me mostra o caminho pra desencontrar.
-Saah Tavares

Décima nona desventura

Eu ia só postar o texto pendente e me mandar, mas hoje me deu vontade de escrever alguma coisa aqui. Tenho vivido dias meio vazios, tenho escrito pra ninguém, tenho me focado em coisas que podem dar certo, mas que são ligeiramente levianas...não sei ao certo onde quero chegar com isso, só sei que esse vazio não me faz infeliz, nem feliz. Simplesmente não sinto vontade de nada, e olha que eu já tomei remédio pra verme este ano...vai entender?


Eis o texto, que chamei de "Sinais"

Coração, por favor, não dispare mais
quando eu me conformar com minha condição
e tiver certeza de que é demais
saber que você não o faz por opção.

Pernas, por favor, parem de tremer
quando meus amigos estiverem perto
desse jeito as pessoas podem perceber
que nem eu mesma me conheço ao certo.

Borboletas, por favor, parem de voar
tenho certeza de que nunca engoli vocês
me deixem livre pra voar, me encontrar
antes que eu perca o caminho de vez.

Suor, por favor, pare de escorrer
você não sabe que só é bom no escuro?
você só é bem vindo quando tem que ser
n'aquilo que eu faço, e depois durmo.

Se você soubesse ler todos os meus sinais
saberia que quer mesmo me conhecer
não do jeito que eu mostro pros demais
mas do jeito que te ensino a me querer.


-Saah Tavares

terça-feira, 30 de março de 2010

Décima oitava desventura

Baixa essa Bola
(quase uma homenagem hehehe)

Não precisa fazer assim meu bem
com esse jeito jazz e rock que você tem
de dizer na nossa cara o que lhe da vontade
de fazer sonhar com suas meias verdades
Não tem porque gastar todo esse talento
com meras seduções a todo momento
É que quem te acompanha cada movimento
sabe que nem você sabe onde quer chegar

Tira esse gingado daqui, menina
que isso não convence mais ninguém
esse teu beijo oposto feito cocaína
a gente só rejeita se conhece bem

Essa sua estrada em lusco-fusco e neón
e essa maneira de achar que aproveita a vida
fragmentos ocultos de um tédio incurável
não lhe levam nem perto do melhor, querida
e sua boca não confunde corações experientes
só sacia desejos extremos e latentes
só lhe aproxima mais da solidão eminente
e lhe pintam em cartazes quase indecentes

Baixa essa bola, por favor, menina
que a vida ainda tem muito pra te ensinar
não é na contra-capa de nenhum livro
que você vai encontrar receita pra amar
(ou alguém que te leve pro altar)


-Saah Tavares

Décima sétima desventura

Descobri que não sei viver com pouco
mas se é só o que tenho, vou me habituar
'tô tentando entender que o meu mundo é outro
é preciso ser aluno pra saber ensinar.

'Tô achando que não consigo viver sozinha
vou cumprindo a profecia do mal do século
O que preciso é dar um bom tempo na minha
sem buscar a cada noite um romance épico.

Eu queria ser metade do que os outros dizem
tal como Bocage, "moças mil, num só momento"
não por um padrão que os demais exigem
mas como Vinícus, por "vão contantamento".

Vou tentando ser trovadorista, romancista, arcadiana
mas mal consigo ensaiar esse pós-moderno
e com essa rotina tão contemporânea
me prendo futilmente em julgamento externo.

Descobri que não sei lidar com muito.
Tudo que tenho, uso e desperdiço
embora este não seja meu intuito
pra valorizar castelos, viva em cortiços.

-Saah Tavares

Décima Sexta Desventura

O melhor de mim
-Saah Tavares

Ontem mais uma noite de fazer sorrir
sem precisar de luzes cintilantes ao redor
em um mundo que não se sabe onde ir
onde ninguém quer dar o seu melhor
encontrei em vocês o melhor de mim

O melhor da vida é correr na chuva
é sonhar junto pra tornar real
é um perfume só que todo mundo usa
é fazer do melhor dia, um dia banal

Só sei que em vocês encontro minha paz
e uma alegria meio sem motivo
algumas dessas coisas nem lembro mais
a vida sem amor não faz sentido
(não existe amor melhor do que amor-amigo)

O melhor da vida é cantar junto
é paquerar no trânsito toda hora
é falar por horas sem faltar assunto
é não sentir vontade de ir embora

Só sei que vocês são o que eu quero mais
pra enxergar além do que a vida mostra
pra trazer mais cor p'ros meus carnavais
e dizer "te amo" sem esperar resposta.


"Nesse mundo de tantos anos
Entre tantos séculos
Que sorte a nossa hein?"