terça-feira, 29 de junho de 2010

30a Desventura

-Andei pensando nos planos sobre os quais te falei no outro dia...
-Quais deles? Tu vive de fazer planos...
-Mas dessa vez eu falava dos teus.
-...os meus? Que planos?
-Os que eu te disse que não pões em prática.
-Ah. Estamos falando disso novamente.(suspiro)
-Estamos. Acho que ao menos precisamos falar, já que são apenas planos...e que nunca deixam de ser...
-Tu me cansa com essa conversa. Sempre a mesma coisa, a mesma pressão...
-Não te pressiono. Quero te ver bem.
-Se realmente o quisesse, não me colocaria essas coisas o tempo todo nas faces.
-Ah...(decepção) desculpe, não sabia que isso te cansava...
-Pois cansa. Tu bem sabes o quanto te respeito, mas é apenas isto. Não peça mais do que posso lhe dar.
(Porta batendo, silêncio)
-...meu plano era você.
Mas não havia ninguém pra responder

domingo, 20 de junho de 2010

29a Desventura

O que te faz feliz?
O que te satisfaz?
O que te entorpece?
O que te enlouquece?
O que te amanhece quando anoitece?

Eu quero um cigarro e um café quente
Você quer nem pensar na gente
Eu quero acreditar quando você mente
Você quer meu beijo mais indecente

Eu quero esse teu amor egoísta
Você quer amanhecer na pista
Quero entender o seu ponto de vista
Você prefere me riscar da lista

O que me faz querer?
O que me faz correr?
O que me faz viver?
O que me dá prazer?
O que me faz crer no que não se vê?

Eu quero te encontrar onde te procuro
Você prefere me deixar no escuro
Eu quero pensar mais no futuro
Você só dá de cara no muro

Eu quero me livrar desse calor
Você só vive procurando amor
Eu quero achar que não acabou
E você não quer me fazer esse favor
-Saah Tavares

sábado, 19 de junho de 2010

28ª Desventura

Alfa de Juno

O mundo é insípido. Incolor, inodor, inóculo, não indolor.
Caminhei com rumo certo, porém, não sabia onde ir. Conhecia bem meu destino, mas não encontrei objetivo nele.
Pessoas assassinam diariamente a gramática e a moda que elas mesmas regem. As regras mudam, e gostando ou não, mudamos com elas, como camaleões habilidosos, diante da eterna expectativa predatória. Já estivemos, outrora, no topo da cadeia alimentar, mas em novos panoramas, constituímos apenas a parte mais esperta desse ecossistema decadente, canibal e vicioso.
As massas parecem cupins frenéticos, em um dia comemorativo qualquer, em que os amantes se presenteiam.
Observei-as apenas com a intenção de não esbarrar nelas, em pleno centro comercial. Os cupins não merecem tal comparação por serem organizados, mas merecem, sim, por sua capacidade destrutiva para com a madeira. E a madeira, são as virtudes.
Nadei neste lago raso, e ele me afogou. O lago tem braços invisíveis, pois fazem parte do mundo, e ele me afoga por precisar fazer parte dele. O que é profundo não deve vir à tona, pois se é profundo, deve permanecer nas profundezas. O raso sufoca mais do que o profundo, e o que vem de lá não sobrevive na superfície, como criaturas marinhas dos sub-oceanos que os tsunamis arrastam, e algumas senhoras assistindo o jornal da noite, acreditam tratarem-se de extraterrestres com guelras. Por isso me calo, diante de tudo. Por isso me adéquo à modernidade eminente. O que eu penso, o que eu faço, nada mais é do que um simples peixe, que jamais foi visto antes de um desastre natural. A Terra luta contra seus parasitas, e eu, contra meus demônios...todos temos nossos santos interiores, nossas devoções, e nosso caos paralelo. A cidade está cheia de flores, mas elas não perfumam mais meus peixes, não enfurecem mais meus demônios, não amaciam mais os meus santos.
-Saah Tavares

quinta-feira, 17 de junho de 2010

27a Desventura

De tanto me perder, de andar sem sono
Por essa noite sem nenhum destino
Por essa noite escura em que abandono
Os sonhos do meu tempo de menino

De tanto não poder mais ter saudade
De tudo que já tive e já perdi
Dona menina
Eu me resolvo agora ir me embora
Pra bem longe e daqui

Um dia desses eu me caso com você
você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre e pompa
Você vai ver como eu me caso com você

Meu pobre coração não vale nada
Anda perdido, não tem solução
Mas se você quiser ser minha namorada
Vamos tentar, não custa nada

Até pode dar certo..ai ai
E se não der eu pego um avião
Vou pra Shangai e nunca mais eu volto pra te ver..

Um dia desses eu me caso com você
Você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre e pompa
Você vai ver como eu me caso com você

Um dia desses eu me caso com você
Você vai ver... você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre e pompa
Você vai ver como eu me caso com você

Adriana Calcanhoto - Um dia desses

segunda-feira, 14 de junho de 2010

26ª Desventura

Ode de Zenana

Quero que Estela me troque as meias
E que Marília me afague a nuca
Manuela, a quero por inteira
E Maria que me una à boca

De Lia quero bons poemas
Que Daniela me pague as contas
Bianca, que resolva meus problemas
Ana diga dia e noite que me ama

Quero que Fernanda me comande
E que Camila me elogie o dia inteiro
De Raquel quero o sorriso mais vibrante
E que Roberta me coloque um freio

De Jade quero conhecer o cume
Que Isadora me propague qualidades
Quero Luísa morta de ciúmes
E nenhum amor pra sustentar tanta vaidade
-Saah Tavares

quinta-feira, 3 de junho de 2010

25ª Desventura

Ode ao Espelho

Oh espelho, o que queres, me encarando desse jeito?
Se te limpo, se embaças, não me mostras a verdade
o que mostra me incomoda, não entendo esse teu meio
de frustrar os meus desejos, ou louvar minha vaidade

Oh espelho que não sabe o que se passa aqui por dentro
que evito quando acordo, que procuro quando amo
espelho que esqueço quando me canso e me deito
e que odeio quando vejo que escapa do meu plano

Se não és como me enxergam, porque me enganas?
se não mais em ti confio, porque ainda me mentes?
por acaso és tu quem levarei pra minha cama?
se não és, então me mostra o que tens de diferente

Espelho, se te exalto, é porque já o fizeram
sem tua ajuda, sem motivo, apenas pra me bajular
o que difere de como te vejo, varia por critério
são olhos, espelhos externos, que me fazem confiar.


-Saah Tavares